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09 dezembro, 2015

Passe Livre


Coluna Pedro Raposo Lopes


SOB ESCOMBROS

Nas praias, nos rios, no Senado... 
Sujeira para todo lado.
 Ninguém respeita a Constituição. 
 Quando vendermos todas as almas 
dos nossos índicos num leilão. 
Terceiro mundo, se for. Piada no Exterior. 
 Que país é este 
(Capa do Jornal “Estado de São Paulo”, dia 26/11/2015)


O ano: 2723 D.C.. O local: Algum lugar entre o ressequido leito do que outrora fora o Rio Oiapoque e o deserto do Chuí, ao norte do Uruguai. Ali, quase um século passado da hecatombe que dizimou centenas de milhões de pessoas famintas, resultado fatal do “efeito estufa”, um grupo de arqueólogos brasileiros debruça-se sobre uma descoberta interessantíssima: um pequeno cofre contendo arquivos magnéticos provavelmente datados do século XXI, que se encontrava sob escombros de uma antiga construção.

O material foi levado pelos cientistas com muito cuidado para os laboratórios da Universidade de São Paulo onde, após laboriosos exames de radiocarbono, chegou-se à conclusão de que datava, todo ele, do ano de 2015.

O material era composto basicamente por jornais digitalizados (método arcaico de armazenamento de grandes quantidades de informações), escritos e músicas daquela época.

Dentre as manchetes dos jornais de então liam-se as seguintes: “Eduardo Cunha dá largada ao impeachment de Dilma”, “Lama do Rio Doce chega ao Espírito Santo e ameaça Abrolhos”, “Governo prevê déficit de R$ 31 bilhões e aumento de tributos”, “Feliciano será candidato a prefeito de São Paulo”, “Dilma proporá a recriação da CPMF”, “PIB recua e recessão se alonga”, “Crise eleva endividamento dos municípios”, “Petrolão pode ter causado rombo de 80 bilhões”, “Investimento despenca e sinaliza mais longa retração desde o real”, “Inflação corrói salários em 15% dos reajustes”.

Todo material é encaminhado ao Departamento de História da Universidade de Federal do Amazonas, no sertão semi-árido brasileiro (em tempos idos, o que já fora a maior floresta equatorial do planeta). Os historiadores tinham muitas dúvidas a respeito de período histórico a que se referiam as notícias jornalísticas.

É que, muito embora o material tivesse idade certa, o colecionador, de forma proposital e misteriosa, havia eliminado as datas dos periódicos e escrito, em letras garrafais, o aforisma de Sócrates: “nosce te ipsum” (“conhece-te a ti mesmo”).

Todavia, como praticamente todas as notícias mencionavam, de forma direta ou indireta, a Polícia Federal, tudo foi reencaminhado imediatamento à sede do Departamento na capital brasileira, situada no pantanal alagadiço brasiliense (antes, aquela que fora uma região pouco aquinhoada pelas chuvas), onde peritos forenses e historiadores da Universidade de Brasília iniciaram seus estudos.

As dúvidas persistiam porque, em maior ou menor grau, todos os casos policialescos se assemelhavam a outros historicamente situados em épocas muito próximas uma das outras.

O escândalo do Petrolão (2015) foi associado ao do Mensalão (2005) e este, por sua vez, à Operação Satiagraha (2004). A menção ao nome do Deputado Federal Eduardo Cunha conduziu o rumo das investigações para a figura do então Presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, cujo escândalo particular datava, entretanto, de 2007 e envolvia a suposta ajuda de empreiteiros baianos no pagamento de pensão alimentícia a uma sua filha.

As investigações passaram a focar, portanto, no Congresso Nacional, porque não convém tornar a coisa pessoal.

Nos arquivos policiais, a relação mais aproximada que se conseguiu estabelecer com a Casa de Leis foi com o episódio dos “Anões do Orçamento”, de 1993 e com a pitoresca figura de um deputado baiano que havia tido a fortuna de ser premiado em 200 sorteios de loteria.

É nesse ponto que o caso se aproximou perigosamente do escândalo Coroa Brastel, de 1983. Estabelecido o intervalo de mais de trinta anos entre os arquivos encontrados e os casos catalogados, chegaram os pesquisadores à conclusão de que o melhor mesmo era dar tudo por visto e encerrado e mandar arquivar o material digitalizado nos escaninhos da Biblioteca Nacional, na Cidade do Rio de Janeiro.

Toda a estória que acima narrei passeia por diversos eventos históricos que sacudiram o Brasil ao longo de mais de trinta anos. E muitos outros há, datados da velha república, do regime ditatorial, e mesmo na época do Brasil ainda colônia se Portugal, com a espoliação do patrimônio autóctone promovida pela pátria-mãe e destinada às burras inglesas, espanholas, holandesas e francesas.

Acredito que o ponto central da estória talvez não tenha sido apreendido pela maioria dos leitores e que reside no pormenor de haver o colecionador de histórias eliminado as datas das notícias e escrito em letras garrafais a máxima socrática “nosce te ipsum” (“conhece-te a ti mesmo”), supostamente inscrita na entrada do Oráculo de Delfos.

Para Sócrates, conhecer-se é o ponto de partida para uma vida de equilíbrio. Se isso vale para pessoas, vale por certo também para instituições e nações.

O Brasil passa por momentos bastante difíceis e as perspectivas não são nada otimistas. Se tudo der certo, o ano de 2016 será tão ou pior para os brasileiros que o de 2015. Desemprego, queda do poder de compra, o recrudescimento do monstro da inflação, a indústria nacional reduzida a pó, o alargamento do abismo entre os muito pobres e os muito ricos. Desigualdade, miséria, violência, déficit civilizatório.

A mais triste notícia, todavia, é que todas as agruras pelas quais o povo brasileiro será obrigado a amargar poderiam ter sido evitadas. São todas elas tragédias anunciadas. Têm a ver, sim, com os sucessivos escândalos narrados sinteticamente na ficção de abertura deste trabalho, mas também com os remédios que vêm sendo ministrados para tentar trazer algum lenitivo à doença.

O Brasil, ao longo de seus pouquíssimos séculos de vida, teima em não aprender com as lições que a história lhe proporcionou e continua a lhe proporcionar a curtos intervalos. Corrupção, fisiologismo político, pilhagem do patrimônio público, promiscuidade entre o empresariado e o Poder Público, confusão entre o que é privado e o que é público, soluções de curto prazo para questões atávicas (que só fazem atrasar o crescimento), personalização do poder (talvez a grande herança maldita de nosso berço ibérico) são apenas alguns erros recorrentes de nossos próceres.

E a raiz de praticamente tudo está na precária educação que é subministrada aos governados e que se manifesta em todos os estamentos. Em recentes manifestações sociais, foram vistas pautas absurdas como a intervenção militar. Será que não aprendemos a nos conhecer a nós mesmos?

E a quem aproveita a eterna, cafona e démodé “summa divisio” política de “esquerda” e “direita”, posições que não fazem a menor diferença quando a vaca está indo para o brejo? A necessidade carece de dissensões. Quando o barco afundar, qual importância terá o lado que você ocupará no naufrágio? Solidariedade, diálogo, união é o que precisamos quando a coisa não está indo bem.

Falta-nos educação. Educação formal e educação como valor, como princípio, o único princípio capaz de trazer igualdade substancial (não igualdade de riquezas, mas de oportunidades). Sem educação não há memória. Sem memória, não há como cumprir o ideário socrático de nos conhecermos a nós mesmos para, somente então, não repetirmos os erros do passado.

Voltando à estória que narrava no início deste já longo discurso, no material arrecadado sob os escombros havia também, junto à coleção de manchetes atemorizadoras e ao adágio socrático, o seguinte trecho de um notável brasileiro chamado Ruy Barbosa, talvez o melhor coco que a Bahia já nos legou:

“A pátria não é ninguém; são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à ideia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo; é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade.”


E havia também uma canção de um artista precocemente morto, cujo nome era Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido por Cazuza. A música chamava-se “Brasil” e no último verso trazia a seguinte mensagem: “Grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair.”

Nós, brasileiros, jamais trairemos a nossa grande pátria.

Salve a semana da pátria!

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24 novembro, 2015

Passe Livre

Coluna Pedro Raposo Lopes



MISÉRIA

“Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Índio, mulato, preto, branco
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Filhos, amigos, amantes, parentes
Riquezas são diferentes”. 
(“Miséria”, Paulo Miklos / Sergio Britto / Arnaldo Antunes)


Fui visitar minha cidade natal na semana passada, o Rio de Janeiro, de São Sebastião. Enquanto aguardava no saguão do local onde iria palestrar, fiquei a observar aquela imensa e magnífica obra de engenharia construída no Píer Mauá, ali naquela praça (até ontem reduto de putas e marinheiros) em cujos arredores se situa o tradicional Colégio de São Bento, onde passei a maior parte de minha infância e adolescência. Belíssima construção recentemente inaugurada, digna das cidades mais prósperas do Primeiro Mundo.

Também não muito distante dali (e dava para ver na mesma moldura de vidro daquele prédio sofisticado do início da Avenida Rio Branco), a comunidade pobre do Morro da Providência e da Gamboa e, um pouquinho mais distante, surgindo entre muita névoa de poluição, a baixada fluminense.

O Rio de Janeiro é assim: cheio de contrastes. A pequenina Zona Sul, espremidinha entre as montanhas e o mar, berço da riqueza carioca, e o gigantesco bolsão de pobreza da baixada. As favelas da Zona Sul, penduradas nas encostas, funcionam como lembrança constante de que a pobreza está lá, existe e não pode ser desconsiderada no cotidiano de executivos e donas de casa.

Essa viagem que empreendi me fez refletir sobre os recentes ataques terroristas em Paris, cidade pela qual também nutro uma paixão imensa, por sua beleza inefável e pela cultura que exala cada esquina sua.

A Paris que conheço também possui seus imensos guetos, onde moram muçulmanos, africanos e toda sorte de minorias. Pessoas à margem do fausto da cidade-luz e tratadas com despeito pelos habitantes e turistas (estes, também, muitas vezes tratados com despeito, sobretudo os latinos. É interessante experimentar uma dose de preconceito, sobretudo quando se sabe que é temporário e não durará mais que o idílio de umas férias na europa).

Vez por outra, no meu Rio de Janeiro, habitantes dos arrabaldes saem de sua marginalidade territorial para desfrutar um pouco das belezas das praias e dos parques. São tratados com o mesmo desdém com que são tratadas as minorias parisienses. Caso não possuam muito dinheiro, poderão ser inclusive presos preventivamente, a bem da ordem pública, com as bençãos da Secretaria de Segurança Pública.

Como dizia De Gaulle, “o apetite do privilégio e o gosto da igualdade, eis as paixões dominantes e contraditórias dos Franceses em todas as épocas.” Os franceses sempre prestigiaram, dentre os ideários da revolução de 1789, o da “liberdade” em detrimento dos da “solidariedade” e da “fraternidade”.

Os recentes ataques terroristas à capital francesa, conquanto possam ter sido urdidos no longínquo oriente médio, foram executados por esses mesmos cidadãos marginalizados, ou quase-cidadãos. E agora, paradoxalmente, as medidas de polícia adotadas sufocarão a “liberdade” dos socialistas de cafés (como cá existem os comunistas de botequim do Leblon). Mas, ao que tudo indica, a iniquidade dos guetos tenderá a prosperar e o preconceito contra as minorias a recrudescer.

Diante desse quadro de confrangedora desigualdade, não foi difícil ao Estado Islâmico recrutar jovens dentre franceses que, sob o pretexto de promover a justiça divina, puseram as mãos em armas e bombas, a arrostar os conceitos ocidentais e seu modus vivendi libertino. 

Miséria é miséria em qualquer parte.

Dizem que o Brasil está imune a tais ataques jihadistas. Será?

Todos sabemos como a religião funciona como válvula de escape para as mazelas da pobreza, basta ver a profusão de igrejas, templos e cultos que se espalham por todas as capitais brasileiras. Some-se a isso o preconceito e a marginalidade e não será inconcebível que as ideias de fundamentalistas também grassem em terras tupiniquins.

E mais: é preciso que se tenha em mente que a má compreensão do Islã é também fruto da falta de educação ou da má formação cultural dessa horda de marginalizados que, justamente por desconhecerem os fundamentos da religião, distorcem os conceitos e lançam-se em empreitadas criminosas.

Ernst Jünger, um dos maiores escritores do século XX, em sua obra “A Guerra como Experiência Interior”, já evidenciava a existência, no ser humano, de algo bestial e o prazer pelo sangue existente nos soldados alemães da Primeira Grande Guerra, sobretudo naqueles cujos olhos não estavam acostumados ao belo e que, portanto, naquele cenário de terror, não experimentavam as intermitências da beleza.

Instile em algum menino pobre das periferias do Rio de Janeiro tais ideias pervertidas, arme-o com um fuzil AK-47, coloque-o em luta contra a desigualdade e terá um jihadista tupiniquim.

Miséria é miséria em qualquer parte.

Em tempo de Olimpíadas no Rio de Janeiro (riquezas são diferentes), é tempo de nos miramos no exemplo a não ser seguido dos franceses e que tenhamos o coração aberto para uma sociedade plural, democrática e igualitária, capaz de possa manter à distância a intolerância de todo tipo. Caso contrário, a Paris de hoje pode ser o Rio de Janeiro de amanhã.


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18 novembro, 2015

Passe Livre

Coluna Larissa Facco



Me beija de novo pela primeira vez

Não fale do que foi. Começa de novo. Me redescobre. Tenho novas tatuagens. Novos sonhos. Tenho cócegas também, nos pés, mas novos medos nas mãos. Brinca com a minha orelha. Me beija de novo pela primeira vez. Deixa meu coração sentir aquela palpitação a cada beijo seu. Deixa eu te sentir perto de mim outra vez. Deixa eu ser a sua bailarina com o ritmo certo para sua vida. Silencia meu mudo, minha boca, meus medos e meus desejos. Deixa o silêncio falar por ti. Despe a minha alma, do jeito que só você sabe fazer. Percorre suas mãos pelo meu rosto. Liga os pontos e descobre que o desenho que se forma, tem a suas características. Ri de mim, ri de ti, ri comigo. Me faz perceber que o som que eu mais gosto, é o que sai da tua risada e que o formato que mais me encanta em ti, é dos teus olhos,enquanto desnuda a minha alma. Me serve do teu amor, me embriaga dele. Fala de nós com a perspectiva de futuro, com a certeza da eternidade, e me lembra que estar com você, pode ser leve, seguro. Me lembra que o amor é renascimento, que seu amor é o meu renascimento.



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11 novembro, 2015

Passe Livre


Coluna Pedro Raposo Lopes



A TEMPO E MODO

É mais sensual uma mulher vestida do que uma mulher despida. 
A sensualidade é o intervalo entre a luva e o começo da manga. 
(Antônio Lobo Antunes)

A brisa que vinha do mar tão próximo acariciava a pele vincada de mais de oito décadas de existência. A brisa era morna e o velho sentia-se morno por dentro e por fora, naquela varanda quase debruçada sobre o mar.

No chão, uma garrafa de um vinho tinto que se demorara muito a escolher no pequeno armazém, como se escolhesse um livro ou um quadro. Entre os dedos, um charuto com que foi presenteado por um querido amigo, um dos poucos (charutos e amigos) que sobraram depois de tanto tempo.

Já um pouco inebriado, observava o velho a jovem morena que, nervosa, certamente esperava por seu amado na calçada em frente. Gestos, ademanes e impaciência o denunciavam. A brisa fazia com que a saia batesse e esfregasse suas pernas muito bem esculpidas, pernas morenas sobre sapatos de salto muito altos, cuidadosamente escolhidos para a ocasião, ou assim o velho supunha.

E o tempo foi passando e o vinho foi sendo bebido e o charuto foi sendo consumido. A morena, do outro lado da rua, irradiava ansiedade. Os passantes observavam a bela mulher com olhos cobiçosos. Homens e mulheres, cada qual com a sua motivação. Ela, nervosa, dava pequenos passos para os lados, arrastando o salto sobre o passeio.

À medida em que o vinho produzia seus efeitos benfazejos, os movimentos daquela jovem mulher pareciam-lhe cada vez mais lânguidos, num descompasso entre a percepção e a realidade, pois que evidentemente a morena estava (ou deveria estar) cada vez mais ansiosa pela demora do negligente amante.

Bem poderia ser proposital a tardança. Aquele que provoca a espera sabe exatamente a eficácia daquilo que se produz no metabolismo de quem aguarda. Os batimentos cardíacos aumentam em sístoles e diástoles descompensadas e descompassadas, o corpo emite sinais que podem ser captados à distância e, por mais sentimento de raiva que se saiba produzir, também se sabe que tudo se desvanecerá e se esfumará num milésimo de segundo com a chegada, ocasião em que a raiva que se sente do algoz se sublimará em gozo.

O véu da noite começava a encobrir o sol quando aquele que se fazia esperar chega afetando pressa (uma pressa fingida, percebeu o velho da sacada quase debruçada sobre o mar). Vinha vestido como um dândi. Sapatos lustrosos, chapéu panamá, um terno de linho muito branco que se compunha perfeitamente com a atmosfera local.

Ela, súbito, como da sacada quase debruçada sobre o mar o velho supunha que aconteceria (afinal, não se passam oitenta anos impunes), deixa-se abraçar e abraça sofregamente. Palavras são ditas na língua estrangeira que o velho pouco conhece e que, dali, daquela sacada quase debruçada sobre o mar, também não conseguiria ouvir, haja vista a distância que os separava. A mão do jovem posta na nuca da morena, sob os cabelos cuidadosamente penteados, possibilitava inferir com razoável dose de certeza tudo o que se dizia.

De braços dados, caminha o casal rumo ao mesmo hotel do velho. Ele, o jovem, com uma elegância muito artificial, mas convenientemente convincente. Ela, a morena, equilibrando-se naqueles saltos muito altos, um andar pouco elegante, mas que, tudo sopesado, em nada embotava a beleza do quadro.

Recolheu-se o velho para o interior do pequeno aposento que ocupava. Como o vinho tivesse acabado, serviu-se de uma dose de scotch da pequenina garrafa posta na bandeja sobre a também pequenina geladeira. Deitou-se. Recostou-se num par de travesseiros. Ouviu o inconfundível barulho dos saltos altos da morena percutirem no piso acimentado do corredor. Ouviu a porta do quarto ao lado fechar e a sacada quase debruçada sobre o mar abrir.

Levantou-se tão rápido quanto pôde da cama e, qual um adolescente, pôs-se a auscultar a parede, não tanto pela curiosidade, mas à feição de um torcedor do regozijo alheio.

Os rumores que vinham do quarto ao lado não davam margem a dúvidas. O jovem dândi despiu-se com pressa, arremessou o corpo da amada sobre a cama e, sem o necessário zelo que a ocasião predicava, desatou aquilo que lhe embaraçava a satisfação. Movimentos velozes e descuidados, muito provavelmente como aprendera nos modernos filmes. Gemidos de prazer seguiram-se ao ranger da cama e tudo estava consumado em questão de minutos.

O velho, um pouco desconsolado, servindo-se do restante da garrava de scotch, deitou-se no mesmo instante em que pôde ouvir a televisão do aposento ao lado iniciar sua litania em língua desconhecida.

Sentiu vontade de bater na porta do vizinho e dizer ao jovem que a vida só merece ser vivida se sorvida com vagar. A vida, como o corpo de uma bela mulher, deve ser desnudada com muito zelo. A contemplação é tão ou mais importante quanto a ação. Tudo a seu tempo e modo. Os dias merecem ser passados com delicadeza, como quem desata os botões da blusa da amada. A vida deve ser vivida momento a momento, como as presilhas de um corpete que devem ser desabotoadas uma a uma, sem pressa, cada qual deixando entrever aquilo que ainda está por vir. Por mais robusto que possa parecer (e o daquela morena certamente o era), o corpo de uma mulher é coisa sempre muito frágil e pode alquebrar-se se não for explorado como quem explora uma ruína de argila muito antiga, assim como a vida pode ser toda ela derruída num átimo, porque coisa também muito frágil. A vida, assim como o amor, não é uma permanente urgência. Oitenta anos não se passam impunes.



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29 julho, 2015

Passe Livre

Coluna Igor Pereira



Deserto de Palavras

Acordei num deserto de palavras. Olho para os corredores vazios que atroam o nada. O vento gelado bate na minha janela, insistente. Às vezes é necessário ter um pouco de paciência e esperar. Sei também, que cada coisa tem o seu tempo. Creio que as palavras que foram, voltarão trazendo-me novidades. Nessa atitude constante de espera, recordo-me de um fato da minha infância. Em Carauari, volta e meia tinha uma tempestade. Ventava, venta muito! E depois, o céu desabava em água. Enquanto o se armava o temporal, mamãe corria para fechar portas e janelas lá de casa, e eu no quarto, quieto no escuro, ouvindo o reboar dos trovões. Sempre que acontecia algum temporal, faltava energia. Era de praxe! Ficava ali, quietinho, com medo dos trovões, dos raios, dos ventos. Esperando... Parecia que não acabava mais tanto trovão e tanta água. Mestre Veríssimo já dizia: “Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo”.  E a chuva perdurava até a madrugada. A tempestade partira. No outro dia, o sol brilhava mais do que todos os dias. No quintal, havia muitas folhas espalhadas e galhos, como se tivesse acontecido uma grande festa na noite anterior e os restos não tinham sido apanhados. O céu mostrava-se limpidamente azul. Assim como tive que esperar o temporal para contemplar a translucidez do dia seguinte, as palavras decerto reaparecerão amanhã no meu jardim, com todos os odores, cores e saltos de alegrias. 


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22 julho, 2015

Passe Livre

Coluna Amanda Jéssica



Amigo homem

Eu sempre tive a sorte de ter amigos homens. Não sei se pelo meu jeito meio 'desbocado' ou se pela minha impaciência com "qual roupa você vai usar?" e afins. Sério, eu não sou dessas. Não curto horas no telefone conversando sobre o cabelo de alguém. Nem sou do tipo que passa horas se trocando, pensando nas mil combinações possíveis de bolsa e sapato. Sequer entendo de moda. E, tampouco, sei diferenciar uma californiana de um ombré hair. Minhas poucas - e boas,  graças a Deus! - amigas sabem: não suporto mimimi. Sim, elas sabem. Mas, às vezes, ainda me olham com um jeito esquisito de "por que você é assim?". A verdade é que esse meu jeito meio masculino, meio inusitado, me fez ver o outro lado da moeda. Se, por um lado, umas tantas se distanciaram, por outro, eu descobri, no homem, um amigo sem igual. Não me critiquem - ou me critiquem - mas o fato é que amizade masculina é o que há de melhor no mundo! É sincera, leal e protetora. Não tem meias verdades. É objetiva. Vai direto ao ponto. Sem “é, você tá fofinha, mas já emagrece”. Aqui, o negócio é “você tá uma baleia. Ou perde os quilos ou perde o namorado”. Sem rodeios. Eles não ligam se você tá feia, descabelada e de TPM. Aguentam gritos, dão gritos. Deixam que você fale mal deles. E você fala. Mas não deixa ninguém falar. E “ai” de quem falar mal de você pra eles. Onde eles estiverem, você também está. Se você não foi à aula, eles fazem o trabalho por você. Nem ligam. Depois, você faz outro por eles. Sem cobrança. Leve. Plena. Serena. Assim é amizade de homem.  Penso, às vezes, que nasci no sexo errado. Mas ninguém me aguentaria homem. E meus amigos me aguentam assim, mulher, com um lado masculino à flor da pele. E, mesmo assim, não esquecem a delicadeza - que nem eu tenho - quando ela é necessária. Ombro de amigo homem é diferente. Ouvidos, também. Chorar pra amigo homem é chorar pra si mesma. E revigora.  Sabem dar gritos. Sabem abraçar. E sabem cuidar como ninguém! Sentem ciúmes sem segundas intenções. Puro instinto protetor.  Não precisam demonstrar, dizer “eu te amo”, nem elogiar. Só precisam estar ali. E sempre estão. Amigo homem não falta. E mostra quão besta é a historia de que amizade entre homem e mulher não existe. Pura hipocrisia. Tenho amigos homens. E não sei viver sem eles.

- Amanda Jéssica
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15 julho, 2015

Passe Livre

Coluna Igor Pereira



Sobre a saudade

Li aqui um escrito de Candéia, seringueiro do Acre, que dizia o seguinte: “Saudade é um parafuso, que dentro da rosca cai, só entra se for torcendo, porque batendo não vai, e quando enferruja dentro, nem destorcendo sai”. Parei e fiquei ruminando essas palavras, tentando entender esse sentimento que muitas vezes nos machuca. Saudade…Saudade é quando a gente guarda dentro do peito aquilo que ninguém pode ver. Todos nós sentimos saudade. Seja da nossa infância, daquele cheiro eterno da nossa casa, dos amigos, seja dos amores platônicos da adolescência que um dia nos fizeram suspirar. Olhamos para nossa infância e para lá retornamos, saudosos, lembrando-se de tudo aquilo que já foi vivido, partilhado e experimentado. Lembrando-se do aconchego dos abraços e do confortável prazer de ser feliz. A saudade nos faz caminhar por outras terras e, de repente, suspirar pela comida caseira que só a mãe sabe fazer, o bolo da vovó, as histórias do vovô, a festa de aniversário, aquela música que nos emocionou, o cheiro de um perfume que nos lembra alguém, um trejeito… Todos nós somos resultados daquilo que vivenciamos. Saudades até daquelas pessoas que sumiram da roda da nossa vida e do ser que nós somos e que nunca assumimos. Saudade do silêncio que nos faz ouvir o eco da vida. Saudade de pessoas que, com sua presença, nos incute ternura e confiança.

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08 julho, 2015

Passe Livre

Coluna Amanda Jéssica


A dor - e a delícia - de ser Mulher

Ser mulher é complicado. Volta e meia, eu me pego pensando em como seria bom ser do sexo oposto. Não que eu seja lésbica. Não é isso. Mas também não veria problema nenhum se eu fosse. A questão aqui é que ser mulher é difícil demais. Pra começar: sexo frágil o caramba! Hoje em dia, mulher tem que pegar muito peso. Ou isso ou já não segue os padrões que o mundo impõe: perninha torneada, abdômen definido e calça 38. 40, no máximo.  E pra ser feliz. Então,  tem que ser forte. Literalmente. E dar uma de delicada também. É a mulher que, indiscutivelmente, afaga. Acalma. E segura os nós. Pode ver: o homem, quando tem um problema, chega chutando o pau da barraca. Quer virar o mundo de cabeça pra baixo. E acha que o planeta vai explodir ali, nos próximos 5 minutos. Aí, a mulher chega, com jogo de cintura, paciência e muita calma na alma. Ajeita uma coisa ali, tolera outra ali. E é quem vai segurando as pontas, com o jeito mulherzinha de ser (que os homens delicados e sensíveis não me matem, mas é assim que - geralmente - acontece). Aí, a mulher trabalha. Claro. Porque, hoje em dia, mostramos que somos tão capazes quanto. Damos duro. Ralamos. Quebramos a cabeça. E competimos pelos mesmos cargos - e salários - que eles. A diferença entre nós é que, na hora de chegar em casa, tem uma pia pra ajeitar, um filho pra cuidar, um dever pra ensinar, uma cama pra forrar e a casa inteira pra colocar em ordem. - Homens, mais uma vez, não me matem, mas, na maioria das vezes, é a mulher que faz tudo isso. E, se querem um conselho, não existe nada mais sexy que um homem na cozinha em pleno domingo. E numa segunda-feira, também -. Mas, voltando: ser mulher é fod*! Pra completar, todo mês é a mesma coisa: o estrógeno cai, a progesterona vai pelo ralo, e a serotonina também. A gente procura chocolate pra aumentar a endorfina e se sentir um pouquinho melhor. TPM. É o nome da safada maldita, que vem, pra fechar com chave de ouro, essa coisa de ser mulher. A cada 30 dias é igual:  a mulher chora. Fica irritada. Maluca. E inconsequente. Se olha no espelho e vê: os peitos maiores e o quadril querendo ocupar o mundo. A espinha aparece. A barriga incha. E surge aquela vontade absurda de quebrar a dieta. Depois, vem o mini-parto mensal. Porque toda mulher que se preze já teve cólica um dia. E desejou, junto com as dores,  ter dois testículos. E um documento no meio. Mas amigas: eu sei que a batalha é árdua, que ser homem é mais fácil (até pelo status de "galinha", que, na mulher, leva definição pior) e que, além de tudo,  a gente ainda tem que aguentar a competição - e a inveja - feminina. Mas a verdade é que, no fim das contas, a gente percebe que ser mulher é uma delícia. Divertido. Desafiador. E elegante. Só a gente sabe se transformar em cima de um salto 15. Com um vestido arraso. E um batom vermelho de matar. O homem pode até ter mais testosterona. Mas a mulher tem um jeito de ver - e de levar - a vida que hormônio nenhum supera. E isso, ah, não tem TPM que dê fim. Ser mulher, definitivamente, é maravilhoso. Parabéns pra gente, que sabe ser mulher macho e mulherzinha. Sempre. E quando a situação pede.  Não é que seja dia 8 de março. Mas é que a gente acaba esquecendo aquela coisa de "todo dia é dia da mulher", que é mesmo uma verdade. E vale pra você, mulher forte e que segura o choro, e pra você, que tá aí, derramando rios de lágrimas por causa por causa daquele sacana. Vai por mim, bonita: você é muito mais que isso. Mesmo!

- Amanda Jéssica
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01 julho, 2015

Passe Livre

Coluna Igor Pereira




 “UM CONVITE AO SILÊNCIO NECESSÁRIO PARA SE OUVIR AS NECESSIDADES DA ALMA”

Marisa Monte proclamou com sabedoria e sutileza essa máxima. Mais que bonito, é verdadeiro. Numa de suas canções, ela canta lindamente: “faça sua dor dançar, atenção para escutar esse movimento que traz paz cada folha que cair, cada nuvem que passar”. Vez ou outra é bom ficar sozinho. Conversar consigo mesmo, encontrar-se. Vivemos num mundo de barulhos. Silenciar é o que menos nos pedem hoje em dia. A todo instante estamos conectados com nossos smartphones, notebooks, plugados nas redes sociais que nos alimentam a todo instante com informações, informações e mais informações. Quem aguenta? Tem hora que cansa e precisamos de um: STOP! Faço-vos um convite: silenciar. Isso mesmo! Escutar o que o teu Eu, lá no fundo, quer te dizer. É diante dessas perturbações diárias, que precisamos permitir-nos silenciar, esvaziar a mente. Tentar tirar da cabeça todo pensamento negativo, tudo aquilo que não nos faz bem. Deixar fluir. Fitar os olhos para algum lugar que nos embevece. Percebe algum pensamento, alguma ideia, algum sentimento? Tranquilize a nervosidade. Acalente sua respiração ofegante. Quando silenciamos, é possível ter a impressão que todo o silêncio interior mira em cada um de nós um outro que não é você, mas que une-se a sua verdadeira identidade. Sentimos até certo receio, desse olhar voltado para nós mesmos: um olhar decifrador, desafiador. Olhar de inquietação de si, como se mergulhássemos imponderavelmente, descobrindo os enigmas interiores. São raros esses momentos de inefabilidade, onde podemos nos encontrar, deixando que a voz silenciosa do Mistério ressoe, num convite à nossa constante construção.


- Igor Pereira
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24 junho, 2015

Passe Livre

Coluna Amanda Jéssica


Média ponderada pra uma vida a dois

Química é importante em qualquer relacionamento. É bom ter alguém que te puxa e te faz perder os sentidos por um momento. Eu sempre idealizei isso: um relacionamento que me fizesse perder o fôlego. Eu achava que amor era importante, mas que era a paixão que mantinha tudo intacto. Só que que, aí, a gente vai vivendo. Vai se relacionando e, também, vai vendo o relacionamento dos outros (por que não?). E vai chegando à conclusão de que esse fogo todo não é base pra nada. Que existe um monte relacionamento por aí com muita paixão e pouco amor. Aqui entre nós? Eu aprendi que nada supera o tal do companheirismo. Já vi muito casal cheio de química não dar certo, porque não havia sentimento. E, olha, já vi também quem, com o mínimo de química, foi feliz o resto da vida por ter amor de verdade. Acho que relacionamento é como uma média ponderada de química e amor. Um bom relacionamento = (Química x 1 + Amor x 99)/100. Mais ou menos por aí. É claro que os dois podem existir. E devem! Sintonia de corpo e alma é maravilhoso. Mas nas doses certas. Depois de muito quebrar a cara, o que, hoje, eu sei mesmo é que, se eu tivesse que escolher entre um dos dois, certamente, escolheria o coração. A paz (e a sorte) de um amor tranquilo e sincero. Nada melhor do que ver os dias passando e ter alguém ao lado, em baixo do cobertor, assistindo um filme e comendo uma pipoca quentinha. Ficar velhinho assim não tem preço! Passei da fase dos encantos, das paixões avassaladoras e dos romances passageiros. Eu descobri que a melhor coisa da vida é ter alguém que, inteiro, seja você pela metade. Ah, isso é bom.  As mesmas ideias nem sempre existem, mas o respeito tá ali, sempre presente. Brigas sempre existirão, mas descobri uma regra que é infalível. Se você amar mesmo, aquele amor bem verdadeiro, combina com ele: independente da briga, os pés tem que dormir encostados. Mesmo que na raiva, só os dedos mindinhos se toquem, de madrugada, está tudo entrelaçado. No outro dia, ninguém lembra mais o que houve. O sol nasce com um abraço. O pé de um já está do lado da cama do outro. E ninguém ousa voltar ao assunto de ontem. E quem há de dizer que existe química melhor que essa?

- Amanda Jéssica
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17 junho, 2015

Passe Livre

Coluna Igor Pereira




SOBRE AMIGOS

Gente, esses dias tava pensando que durante toda a nossa vida, acolhemos vários papeis: somos filhos, irmãos, pais, esposos, namorados, vizinhos, colegas… amigos. Cada papel desse citado acima tem suas “lindezas”, pormenores e problemas também. Talvez, sem esta grande teia afetiva, nossa vida tornar-se-ia vazia. Para cada época, assumimos um papel e ao longo do tempo tudo vai se transformando e penso que o único que permanece intangível é o amigo. Há que se perguntar: o que é um/a amigo/a na vida da gente? Amizade boa é rara e eterna! Os anos passam, mudamos sonhos, aglomeramos histórias, experiências e ensinamentos. E com um amigo de verdade, somos sempre os mesmos. Não há como negar! Amigo é pedaço importante dentro da gente. Ainda mais quando a amizade foi construída na época da escola, quando estávamos descobrindo o mundo a nossa volta. Amizade é árvore que brota, cresce, floresce e frutifica. Como é bom descansar num amigo. Ele é um regaço acolhedor. E quando estamos com problema, sua presença nos reconforta. Amigo gargalha gostosamente com nossas alegrias e carrega o fardo conosco. Nesse primeiro post falo de amizade, porque outro dia, estava conversando com um grupo de amigos de infância e recordamos tanta coisa boa. O mais engraçado é que todos tomaram rumos “muito” diferentes daqueles planejados na nossa tenra idade. Quando conversamos, retornamos para nossa infância, saudosos. Parecemos àquelas crianças sentadas na escada da escola São José, sonhando com os encantos do futuro. Realizamos todos os sonhos? Quem nos dera! Eram tantos os sonhos. E mesmo há milhares de quilômetros de distância, seguimos unidos, corrigindo a vida, aprendendo com os tropeços. Até porque amigo que é amigo é nossa segunda família, né?! Como diria Quintana: amizade é um tipo de amor que nunca morre. É… não morre nunca! Amigos? Irmãos? Nada disso! Somos mais do que a compreensão humana pode entender.


- Igor Pereira
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10 junho, 2015

Passe Livre

Coluna Amanda Jéssica


Dos ingredientes que toda boa relação tem que ter

Duas coisas que têm faltado na gente hoje em dia: autocrítica e atitude. Pode ver: a ausência de uma, geralmente (sempre), vem acompanhada da falta da outra.
Vamos lá! O relacionamento não tá dando certo por alguns motivos: ele não tá sendo atencioso, ele não tá sendo romântico, ele não tá fazendo jantares maravilhosos, nem te levando pra curtir programinhas incríveis toda sexta à noite. A casa tá um caos por causa da bagunça dele. Você não aguenta mais aquela toalha molhada, a louça suja, as meias no chão e a cama desforrada. Ele vive cansado. E só quer ficar em casa. Dormir. Descansar. E ficar ao seu lado, te olhando como se você fosse a última maravilha do mundo. Você, claro, quer sair, aproveitar pra gastar as energias e fazer qualquer coisa que não seja, simplesmente, ficar deitada com ele como se não houvesse mundo atrás da porta. Quanta coisa fora do lugar, não? Você, cheia de energia, disposição e louca por carinho, amor, paixão e entrega, tem estado ao lado de alguém que não corresponde (mais) às suas expectativas.
Ok. E a autocrítica? O que é que você tem feito pra que esse relacionamento cheio de histórias boas não se vá pelo ralo? Você é romântica? Você é carinhosa? Você tenta agradar o outro de alguma forma? Talvez, ele, cansado de uma rotina puxada, cheio de problemas e com a cabeça a mil, só queira mesmo chegar em casa e comer com você aquele jantarzinho azedo que só você (não) sabe fazer. Aquele miojo insosso. Ou aquela lasanha que você compra no supermercado e ele finge acreditar que, além de deliciosa, foi você quem fez.
Para um pouco e pensa! Relacionamento – e eu não canso de dizer isso! – é uma via de mão dupla: se você quer receber, você tem que dar também. E incessantemente. Dia após dia. Porque o que faz do amor uma delícia é a intensidade com que a gente se dedica ao outro. E aí, vem a questão da atitude. Depois de colocar a mão na consciência e parar de cobrar do outro o que a gente não faz nem de longe, a gente tem que deixar de ser hipócrita e AGIR! Não é só “não fazer pelo outro o que não gostaria que ele fizesse com você”. É mais que isso: é fazer por ele o que você gostaria que ele fizesse por vocês dois. E vou além: é saber abrir mão e agradar um pouco aquele com quem você escolheu pra dividir a vida.
 Relacionamento é cheio dessas coisinhas mesmo: consciência, dedicação, atitude e, principalmente, saber se colocar no lugar do outro. Não que a gente tenha que deixar de lado o que a gente quer ou as nossas intuições e concepções mais firmadas, mas a gente tem que, apesar de não concordar e não entender, saber aceitar. Não abrir mão de uma coisa aqui, mas abrir mão de um monte de coisa ali. E ir ajeitando o que tá dando errado. Moldando. Consertando. E fazendo dar certo.
Mas, antes de qualquer coisa, vale a pergunta: é isso que você quer? E TE FAZ FELIZ? Se não, esquece tudo que a gente conversou aqui, parte pra outra e vai encontrar felicidade de outro jeito. Mas, se sim, cabe repensar. E ir tomando a consciência de que, mais que exigir, a gente tem que fazer. Olhar mais pra si do que pro outro. E ele que cuide das suas próprias mancadas. Porque não tem outra: se cada um fizer sua parte, a relação só tende a andar pra frente. E a ser, cada dia mais, uma delícia de (re)conquistas.
Que a gente nunca esqueça: amor – amor mesmo! - nunca vai ser perfeito, mas, quando a gente decide encontrar paz ao lado de alguém, a gente descobre solução – e alegria - nos piores problemas. E, até, principalmente neles. É só ter um pouquinho de consciência, paciência, atitude e muita, muita vontade de fazer dar certo. Porque, quando dois querem, um não fica separado do outro nem que o mundo inteiro conspire contra. E não tem quem me convença do contrário!

- Amanda Jéssica
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27 maio, 2015

Passe Livre

Coluna Fernando Suhet




Hoje ela acordou decidida. Abriu a janela e deixou a luz do sol entrar. Fez as malas. Colocou mágoas, perdas, gente falsa, vazia de bem querer, mentirosa, sem amor, sem educação, sem noção, sem reciprocidade, toda negatividade, olhares da inveja, solidão, lágrimas mal resolvidas, falsos amores e valores, bilhetes velhos da loteria, do cartão de crédito e do estacionamento. Bateu a porta e se foi. Sentou no banco da estação. A mala, colocou no trem. Ela, voltou para casa. Mesmo de pijama e com os pés descalços ela foi seguir em frente. Quem te virou as costas ontem já não mais participa do seu dia.
Uma hora é preciso ir atrás de quem te valoriza, e que o resto também vire vida.

- Fernando Suhet
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20 maio, 2015

Passe Livre

Coluna Gabriel dos Anjos


“Quando estreou A culpa é das estrelas"

Ao assistir o filme "A culpa é das estrelas", sem intenção alguma de criticar ou qualquer outra coisa do gênero, tive a vontade de escrever. Escrever para mim, escrever para os que se interessam, se importam comigo. Sem a menor preocupação de estar fugindo (talvez e/ou de certa forma) do tema tratado na história, quero botar pra fora o que deu vontade de realmente sair de mim. Sim, estou falando do meu próprio eu. Nesse texto não me escondo em nenhuma personagem se quer. No meu íntimo total, tento vomitar o meu ser, me colocar pra fora para eu poder me enxergar. Alguns devem pensar que estou rodeando para que no final eu fale de um mesmo assunto. De certo seria a paixão ou algo parecido. Mas hoje eu digo que não, mando a paixão que um dia senti (por algumas pessoas) ir à merda. Com o filme rodando eu percebi que eu me acostumo, mesmo sabendo que novas coisas podem vir. Me acostumei com paixões alheias, sabendo que o amor existe, e que em qualquer suspiro de vida ele pode aparecer. Me vejo num espelho mental e sinto um rancor da minha futilidade material e ainda não satisfeito, da minha futilidade sentimental. No estalo dos dedos a vida muda. Nesse velho clichê, coloco uma continuação e digo "ao fechar um ciclo, outro se inicia." Será mesmo? E se o tempo não for tão bom quanto eu penso? Não temo a morte. A morte sempre se pertence, vai de qualquer jeito aparecer, prefiro então deixar ela lá, bem sossegada.
O meu medo maior é a incapacidade dos outros, incapacidade de ajudar, de amar, de ser feliz e principalmente de viver. Percebo que para algumas pessoas, a vida está valendo tão pouco. Para mim não, ela é única, tenho que aproveitá-la ao máximo. Sim, eu sei que eu posso estar dando mil e uma voltas nesse meu escrito. Mas, sinto a necessidade de por para fora toda essa bomba. Eu cansei do velho " e se...", " e se... Algo acontecer", "e se... Não der certo", "e se..." Caramba, estou mandando o "e se..." ir para o mesmo lugar das paixões, como eu citei no início. O filme me mostrou uma esperança, como se diz no mantra que gosto de escutar "Om mani padme hum", que significa: da lama nasce a flor de lótus. A história retratada (mesmo que tenha sido fictícia) me deu esse pingo de esperança. Esperança num mundo melhor (sei que esse é um outro clichê), esperança em pessoas sentimentalmente melhores e humanas, esperança num eu bem melhor para poder seguir. Seguir minhas vontades, meus desejos, seguir meus sonhos. Seguir em busca de meus objetivos, seguir em busca de um crescimento, ou melhor, de um amadurecimento de espírito.
Cansei de uma tristeza embriagada em mim e nos outros. Sim, eu sei que em muitos e muitos momentos não queremos dar um sorriso, dar uma palavra amiga, dar um apoio. Em muitos momentos eu me fecho por causa de meus problemas. Ao sair do cinema eu percebi que não tenho problema algum. Meu Deus, eu não passo fome, eu não durmo embaixo de uma ponte, eu não tenho um câncer que corrói o meu pulmão, o meu fígado, seja lá o que for. Isso sim são problemas para se pensar e muitas dessas pessoas que passam por isso, não reclamam de tudo. Eu tenho sim a obrigação e o dever de dar um sorriso todo dia, de cantar, de pular de dizer que sou feliz. Porque é exatamente isso, eu sou feliz, sou sortudo. Ao escrever essas últimas frases eu me sinto mais honrado por reconhecer tudo isso. Por pelo menos em alguns minutos tirar a cegueira falsa dos meus olhos e enxergar o outro e enxergar o meu eu.
E o amor mostrado no filme, alimentou o meu ser e me fez ter a certeza que ele existe. E que ele não aparece só em uma relação de casal. Ele está presente numa ternura, num afeto, numa palavra amiga, num conselho, num gesto. O amor simplesmente aparece quando as coisas são feitas de coração e sem intenção.

Gabriel dos Anjos. 
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06 maio, 2015

Passe Livre

Coluna Gabriel dos Anjos

Lucia

E então a gente se abraçou e a junção do seu perfume com o meu fez o ar ficar mais puro e ainda melhor do que isso foi ter o seu perfume impregnado na minha pele.
No banco da praça eu acabei dormindo no seu colo, tua mão como uma seda me acariciava. Eu acordei e te olhei. E, na confusão da realidade com a imaginação eu vi uma estrela. Não, eu minto. Na verdade eu enxerguei você, é que a tua luz radiante, de certo fez meu olhar brilhar e acabar se confundindo.
Levantei na minha plena consciência e fui no jardim ao lado buscar uma rosa, eu lhe entreguei essa rosa. Você com o seu jeito de menina, com sua voz doce, tal como a doçura do açúcar me agradeceu e pôs a flor amarela entre o seu penteado e que de certo combinou com o seu tom de pele.
O silêncio conseguiu calar-me e no abstrato da escuridão eu pude escutar a sinfonia do seu corpo, escutei as batidas calmas do seu coração, escutei a sua respiração aguçada. O relógio apontou um horário infinito pelo o qual eu tinha tempo com você. E ele, o tempo foi meu maior aliado para lhe fazer o flerte. O que foi minha inimiga e em nada me ajudou foi a vergonha insana. No momento as minhas mãos suavam, a voz não saiu e no agudo trêmulo de um pensamento, eu sonhava com um beijo seu. Ah Lucia, o teu beijo era tudo o que eu queria! Ter o sabor do seu beijo na minha boca, ter o gosto do seu corpo dentro de mim.
Imaginei essa cena, nossos olhos se fechando enquanto nossas bocas iam se aproximando. Eu te amei, juro que te amei, meu Deus como eu ainda te amo. Mas você decidiu ir embora junto com a noite que estava para acabar. Só que o meu conforto é saber que a noite vai embora, mas ela sempre volta e junto com ela você vem, vem para fazer meus sonhos bem mais vivos.
Agora eu ouço as batidas do despertador. Um beijo meu amor e a noite a gente se reencontra.

*Inspirado na obra Lucíola - José de Alencar.



-Gabriel dos Anjos. 
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29 abril, 2015

Passe Livre

Coluna Fernando Suhet




Percebi no teu gesto, no jeito de falar e sentir sua imensa capacidade de ir além, mas parece que você não se deu conta disso. Seu olhar parece que continua no passado e seu coração continua nas coisas que já deviam ter sido jogadas fora. Cadê sua vontade de ser feliz e esquecer do que não te faz bem?! A partir de agora nada de sorrisos disfarçados. E também não precisa se esmagar para caber dentro de um vestido, sua estética é perfeita. Você não é uma história já contada para que suas qualidades sejam descritas, quem quiser que as observe e pague o preço. Você tem uma força e sensibilidade sem tamanho e será reconhecida por isso.
É mulher, se você soubesse realmente o valor que tem, não pararia em qualquer “não” pronunciado no seu rosto, não alimentaria qualquer sentimento em vão, não pararia para sofrer por qualquer homem, que na verdade não sabe sequer a essência de ser homem, se você soubesse realmente o valor que tem não se importaria tanto com o outro, e seria somente você com seus sonhos, deixaria de ser discreta e de guardar o sentimento dentro da gaveta. É mulher, peço todos os dias para que você saiba realmente o valor que tem... Engole o choro, olhe pra frente. A vida não é fácil, mas o sonho te faz ser forte!

- Fernando Suhet
@nandosuhet @mundoescrito


16 abril, 2015

Tempo...

Admitir nossas fraquezas, pedir desculpas, agradecer pela vida, ganhar um abraço: às vezes, tudo o que a gente precisa cabe no tempo de uma música.

Ou de um sorriso.

foto Alessandra Duarte
Para trazer mais poesia para essa quinta-feira, nosso querido cronista do blog @gabrieldosanjos_ interpreta lindamente um texto meu! Obrigada pela homenagem, Gabris!



 Para conhecer mais sobre o trabalho do Gabriel dos Anjos, acesse: gabrieldosanjos_ no Instagram,  e a fanpage Sem sentido na emoção. Até amanhã, pessoal!

15 abril, 2015

Passe Livre

Coluna Fernando Suhet



Pra você que vive de status, ela não quer saber do seu carro, das suas roupas e suas baladas. Ela só quer sua companhia, abraços e beijos roubados. Ela não quer saber da sua soberba, ela só quer um olhar diferente ao colocar um vestido preto. Ela não quer saber se você viaja aos quatro cantos do mundo, ela só quer saber da sua capacidade de tirá-la do seu mundo e lhe apresentar o seu. Ela não quer saber das suas festas e porres, ela só quer te eternizar dentro de um beijo e se sentir protegida dentro do seu abraço. Em um mundo onde você é visto pelo o que tem, e onde algumas pessoas ainda gostam de quem não as valorizam, ela só quer alguém que a leve pra jantar e que mais uma vez não deixe de acreditar no amor.

- Fernando Suhet

Sigam o Nando no Instagram: @nandosuhet e @mundoescrito! He rocks!




01 abril, 2015

Passe livre

Coluna Fernando Suhet





Não dá mais para escutar o Zeca sem lembrar do seu último telegrama, não dá mais para escutar o Renato sem saber se aquilo era tempo perdido, ou escutar o Samuel e lembrar de todos nossos mil acasos. E quando o Nando aparecia com os lábios em um relicário?! O Marcelo com a santa chuva que nos molhou, o Humberto com as armas químicas e poemas que te fiz, o Fernando quando vejo você brilhando aonde estiver, Presenciar Buarque e eu, apesar de você,  o Herbert quando ficávamos seguindo estrelas, ver o Lenine te acompanhado no último pôr do sol, e por fim , te lembrar nas asas de um codinome beija-flor de Cazuza...
Sei lá, só sei que não dá mais pra ligar o rádio do carro quando você for a música...

- Fernando Suhet
@nandosuhet @mundoescrito

25 março, 2015

Passe Livre

Coluna Gabriel dos Anjos

Preciso falar com você

"Oi, preciso falar com você". Essa frase me causa intensos arrepios. Uma frase tão simples, tão curta. Mas com uma energia negativa tão forte. A voz de quem está pronunciando, é sempre severa. 
Pode vir por aí: a noticia de uma morte, de uma paixão que acabou, do término de um relacionamento (que no momento, soa na mesma intensidade do que a notícia da morte).
Não aguento mais, tento aqui rodear em algum assunto que me faça esquecê-la. Mas é difícil esquecer alguém, quando seus sentimentos estão entranhados, quando eles fazem um nó na garganta. 
Preciso me recompor, eu sei. Mas as lembranças enlouquecem, o choro entra num caminho, mal consegue seguir direito o seu fluxo. É preciso esquecer, mas quando você não esquece, por justamente gostar de lembrar? Sem ordem, na confusão esferográfica de um rodamoinho interno de meu ser. “ Oi, preciso falar com você”. 
E agora, o que se fazer? Nada. Essa frase lateja na cabeça. O tom de voz, o sentimento carregado, a lágrima caindo, a metamorfose. 
Desapareça, tire-me o ar. O motivo de sonhar, de amar. 
Falta um pedaço, falta ferida exposta. Carne crua, carne nua. Falta tudo a flor da pele, falta ardência da queimadura interior, superior, inferior - falta ódio - vontade de bater com a cabeça. 
Tiro você de mim, sua escova de dentes eu jogo no lixo (muito mais por orgulho, do que por vontade).
“Preciso falar com você”  pronto, explodiu. Ajoelha-te ao pé da cama, no escuro, na dor efervescente do coração, da palavra. Pronto, chore, você pode, você consegue.
E, depois do desespero, depois que se põe para fora tudo o que foi acumulado, assim, no raiar do seu sol, você entende tudo o que aconteceu. Todo o acidente. Pronto, passou…Passou. Bola pra frente, é possível. Ao caminhar, vão ter alguns incômodos devido ao espancamento sentimental. Mas aos poucos passa, o sorriso brota de novo no olhar.”


-Gabriel dos Anjos. 
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